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27 agosto 2021

E quando não somos a protagonista do filme?


Sou apaixonada por filmes de comédia romântica estadunidenses. Não cresci assistindo Godard ou Martin Scorsese que muitos jovens adultos alternativos podem alegar que sempre assistiram. Foram os filmes com Jennifer Lopez, Drew Barrymore, Julia Roberts, Sandra Bullock e tantas outras atrizes esplendorosas que formaram toda a base romântica e idealizada desta pessoa aqui. Mulheres protagonizando aqueles filmes icônicos sobre um par romântico que se conhece de uma forma espontânea e inusitada e que sofre alguns percalços durante o relacionamento para, ao final, conseguir seu tão desejado final feliz. E o filme acaba nisso mesmo. Em um final de cores amenas, fotografia de comercial de margarina, com uma trilha sonora de superação, focando em sorrisos, podendo conter até balões esvoaçantes no take final. Era sempre um misto de alegria e choro ao final de cada filme, e as lágrimas talvez pudessem ser de pura emoção por uma história bonita chegar ao final, mas eram, principalmente, por ‘voltar à realidade’ de que eu não era essa protagonista, de que eu não conheceria um rapaz daquela mesma forma e de que ele não agiria daquele jeito comigo. Tendi a crescer achando que poderia ser a personagem principal do meu próprio filme, de que as atenções poderiam se voltar ao que eu estava fazendo ou sobre o que eu estava pensando, mas, no fundo, eu sabia que não me encaixava bem como protagonista de alguma coisa. Nunca fui magra, de cabelos ondulados e hidratados, naturalmente esvoaçantes, andando de saia ou vestido com algum sapato alto por alguma avenida tumultuada no centro da cidade. Eu não cabia naquele padrão que eu admirava tanto. Sim, eu aprendi a admirar aquelas mulheres, na verdade, aquelas personagens, não as atrizes em si, mas as performances de mulher, do ser feminino que elas representaram; só que, ao mesmo tempo, eu não era nada disso. Vivia em contradição. E em frustração. Eu, enquanto mulher heterossexual e cis, sofri anos e anos por sempre relembrar de que a minha vida e de como eu era não correspondia ao ideal dos grandes filmes com finais felizes, assim, não consigo nem imaginar como isso foi/era para mulheres gays, bis, assexuais, mulheres negras, gordas, enfim, todos os recortes identitários que não se encontram nos padrões hollywoodianos que aprendemos gostar (ou que somos forçadas a isso?). 


Como lidar com a ideia de não corresponder a determinado padrão e, portanto, chegar à conclusão de que eu não merecia aquele amor televisionado que eu tanto gostava de assistir? Como lidar com a frustração de não ser a garota perfeita ou ‘imperfeitamente perfeita’ que me fazia rir e me emocionar com suas histórias de superação amorosa? Como lidar com a ideia de que aquele rapaz apaixonante não vai me tratar daquela forma, pois, na minha cabeça, isso só acontecia com determinados tipos de garota em locais específicos de convivência? (Com certeza a periferia em que nasci e vivo não me deu exemplos semelhantes de histórias de amor como as dos filmes românticos, foram outras histórias, algumas de um amor inexistente, outras apenas violentas, e outras bonitas, mas não iguais). 


Revendo alguns desses filmes, a nostalgia de uma menina que cresceu sendo ‘irregular’ em vários sentidos, considerada feia e dispensável pelos meninos porque era gorda e não vestia as roupas da moda, ou considerada descartável pelas meninas que não gostariam de se aproximar de quem era muito diferente do que era considerado o comportamento ‘ideal’ para uma guria ‘popular’, me provoca um aperto no coração pela liberdade que não tive anteriormente, pelas ações que me propus a fazer apenas para agradar um outro ou pelos pensamentos limitantes que tive sobre mim mesma quando me via medida por uma régua que não era minha, que não me cabia. 


Escrevo com dó do meu passado um tanto turbulento em relação ao que eu esperava ser e nunca fui, porque eu simplesmente era outra coisa e estava tudo bem ser essa outra, eu só precisava me achar um pouco mais, as coisas iriam se encaixar. Com isso, não quero dizer que os filmes hollywoodianos foram os grandes algozes de minha sempre baixa autoestima, mas, vocês entenderam, né? (Digue lá, mulher cringe nascida nos anos 90, como eu). Hoje, não tem como reassistir esses filmes e não deixar de problematizar ou estranhar muita coisa no enredo e na caracterização dos personagens. É assustador. Ao mesmo tempo em que me sinto uma velha rabugenta, também acho que a consciência trazida por tantas leituras, tantas histórias ouvidas, tantos exemplos novos e mulheres outras para me inspirar, me faz alguém um pouco mais esclarecida sobre muita coisa, mas, principalmente, sobre mim mesma. E é sobre isso, né? Não tá tudo bem, mas sigamos na eterna desconstrução de Amélia (aliás, obrigada, Pitty, por sempre versar sobre coisas tão pertinentes para uma menina/adolescente que se encontrou em tua música e começou seu processo de desconstrução quando começou a te ouvir, junto a outras mulheres).

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