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08 setembro 2020

Entrevista com o autor: Daniel Prestes


Hoje temos mais uma entrevista com o autor, agora de um novo parceiro do blog, além de amigo da vida acadêmica e pessoal. Daniel Prestes é crítico literário, mestre em Letras e autor paraense. Recentemente lançou seu mais novo conto na plataforma Amazon: Nunca mais Café, o qual teve leitura já resenhada no perfil do Instagram do blog (post exclusivo por lá). Hoje vamos conhecer um pouco mais sobre ele e sua produção.

Uma breve apresentação sobre quem é você, o que faz, sua formação, o que te inspira:

Eu sou graduado em Letras - Língua Portuguesa e Mestre em Letras pela Universidade Federal do Pará. Pesquiso recepção de prosa de ficção feita por leitores na internet, especificamente no Youtube. Não sei dizer se há algo específico que me inspira. Geralmente eu tenho ideias a partir de coisas cotidianas com as quais acabo fazendo algum tipo de relação ou conexão. Quando essas ideias acabam sendo fortes o suficiente pra me fazer ficar ruminando, acabo escrevendo. Propostas de exercícios de escrita ou editais com temas também ajudam a essas ideias aparecerem.

Quando iniciou tua paixão pela Literatura?

Paixão, não sei se atualmente eu descreveria o meu sentimento dessa maneira. Já fui um leitor muito mais agressivo e voraz, porém hoje em dia estou mais calmo. A paixão ficou nesse tempo da voracidade. Eu comecei a ler criança mesmo, sempre tive muitos gibis da turma da Mônica. Minha mãe sempre comprava eles e os almanacões de férias. Na escola em que estudei a maior parte da minha vida, em São Paulo (onde nasci), sempre pedia livros paradidáticos. Fora que eu também tinha muito tempo livre, porque fora os amigos da escola, não tinha mais pessoas próximas com a mesma faixa etária. Eu sou o primo mais novo dos primos mais velhos, que são em sua maioria mulheres. Só que nessa época eu não lia tanto livros, eram mais revistas mesmo. Quando me mudei para Altamira, comprei o primeiro livro de Harry Potter. Li e reli esse livro inúmeras vezes porque quando me mudei pra Altamira eu não conhecia ninguém e era mês de férias. A adaptação também não foi muito fácil, então acabei ficando muito com os que fui comprando com o tempo. Logo depois, abriu uma Nobel na cidade, me tornei amigo de todos la, do dono, dos filhos dele e dos funcionários. Passava horas lá. Imagina, poucos amigos, gosto pela leitura, tempo disponível... Então pode-se dizer que embora eu tenha sido sempre um leitor, a “paixão” veio com a descoberta de livros de fantasia e com o fato de ter que me entreter sozinho.


O que te motiva a escrever?

A gente sempre pode escolher uma versão bonitinha sobre essa questão. Aliás, sobre a anterior também, né? Que motiva a escrever acho que é a vontade de comunicar, de falar, de manter diálogo. Eu falo muito, mesmo por mensagem de texto. Eu penso demais. E preciso externar isso de alguma forma e acaba sendo pela escrita.

Como ocorre teu processo de escrita?

No caso de ficção, geralmente eu tenho uma ideia. Essa ideia pode vir do “nada” ou pode vir de alguma situação orientada, como um exercício de escrita, um tuite de alguém que eu sigo e que dá pra fazer algum tipo de gracinha e que acaba criando um certo enredo ou uma chamada de textos. Essa ideia geralmente se torna um encosto que não me deixa pensar muito em outras coisas. Daí eu sento e vou escrevendo até terminar uma versão. Se eu interromper o processo sem que essa primeira versão exista, dificilmente consigo retornar pro texto. Depois, a depender da ideia, se ela continua me perturbando ou não, vou fazendo revisões e acréscimos, reescritas. Mas confesso que não sou muito fã de tantos retornos. Isso é uma coisa que me deixa muito exausto. No final das contas, é por causa disso que eu não tenho textos muito longos.

Como foi ocorre a trajetória de publicação?

Bom, os primeiros textos foram em coletâneas e concursos da UFPa, por exemplo. Também têm textos publicados em jornais literários. A maioria estava no meu antigo blog, o Folhetim Felino, que eu tirei do ar. Agora eu também tenho as autopublicações na Amazon.

O que você pensa sobre o mercado editorial brasileiro/paraense atual? É difícil ser autora/escritora no Pará?

Bom, o Mercado Editorial é claramente centrado na região Sudeste. Não só porque as editoras estão lá, mas porque autores e produtores de conteúdo também se concentram na região e, de modo geral, só compartilham as pessoas de lá. No máximo você consegue, atualmente, ver autores do Nordeste e do Sul, mas o Norte e o Centro-Oeste ainda são, pelo que vejo, menos divulgados literariamente. É mais fácil autores da região sudeste chegar aqui, do que nós do Norte, chegarmos a eles. Isso porque não me parece haver tanto interesse em se conhecer, buscar saber. Vejo isso pelas redes sociais, muito. Mesmo que haja uma interação entre autores e produtores de conteúdo de outras regiões conosco, a troca é muito assimétrica. O fato mesmo deles saberem que a gente existe não garante que haja circulação, porque eles sabem, mas não lembram.
No caso do mercado paraense, também é complicado. As editoras daqui não tem envergadura pra fazer uma projeção dos autores. A maioria são publicados pelas mesmas editoras há anos, sobre temas muito específicos e regionais. E com isso não quero dizer que há um problema em se tratar das nossas regionalidades, do que há específico do lugar, mas quem observar bem, saberá que a produção literária daqui vai muito além disso. Algumas editoras passaram a prestar atenção nisso, mas ainda é muito pouco. Por exemplo, atualmente de projeção nacional, temos o Edyr Proença, que até ganhou prêmios na França. Também temos a Roberta Spindler, que foi publicada na Suma. Edyr fala de violência urbana. Da violência de Belém e região metropolitana. Não é algo muito usual quando se pensa em literatura paraense ou em se falar de uma literatura produzida no Norte, envolto entre rios e florestas. Roberta no último romance por ela publicado, traz uma história de fantasia a partir de jogos online, hoje conhecidos como e-sports. Há personagens paraenses, mas não foca só nisso. E esses dois são exemplos de autores publicados por editoras e com maior projeção, ainda outros produzindo sobre um terror que não passa necessariamente pelo que se convencionou cultura popular local, de seres da floresta. Há também os independentes.
Mas esses últimos são mesmo um grupo mais a parte. O que temos mesmo são muitos escritores que publicam muito por editais. Não há problema nisso, mas é preocupante, a meu ver, que eles só pareçam ter esse caminho para conseguirem ser publicados.
De outro lado, há uma forte presença do que consideramos ser o cânone paraense, que ganha apoio da Universidade, já que é ela quem mais se dedica a lê-los e estuda-los.
E pra finalizar, o mercado paraense é majoritariamente masculino. E quando há presença de mulheres, elas são eclipsadas pelos homens, ainda que sejam todos escritores contemporâneos. Isso ocorre principalmente no campo da divulgação. A maneira como elas são divulgadas é muito diferente da forma como eles são. A qualidade de como se fala e de como se apresenta os homens é muito maior e mais elaborada do que das mulheres.

Quais as suas paixões além da Literatura?

Eu já fui muito de ver filmes e ver séries, mas hoje eu acho que fora trabalhar com o literário e com textos a maior parte do meu dia, eu gosto mesmo é de cozinhar.

Tem dicas para uma boa escrita e para pessoas que pretendem escrever seu próprio livro?

Ler é sempre importante, acompanhar o que tem sido publicado também, pra saber pra onde as coisas estão caminhando e de onde elas saíram. Não querer inventar a roda, nada de um novo Senhor dos Anéis. Buscar referências nacionais, que se conhece. Se for trabalhar com personagens que pertencem a minorias ou grupos étnicos, fazer uma boa pesquisa. Não achar que texto é obra de arte e que nem pode ser mexido ou criticado. Você não precisa concordar, mas não pode tolher a interpretação que fazem do teu texto. E aqui eu nem estou falando pra aceitar grosseria gratuita. Não aceite e não aceitar implica em não gastar seu tempo com gente mal educada. Revisar. Ter pessoas que leiam o material antes. Mas sempre prestando atenção que, se são seus amigos, é provável que eles tenderão a achar bom ou dizer que está bom. Então é melhor escolher pessoas que possam ter a liberdade de dizer que não está quando não estiver. Não embarcar em pagar para publicar. Escrever sempre. Submeter o máximo que der as chamadas de revistas, coletâneas e afins. Essas dicas são meio que uma reunião de dicas de experiência própria e das que já vi editores e demais pessoas do mercado editorial darem pras pessoas.

O Daniel possui uma escrita muito boa, além de escrever ficção, também escreve ensaios sobre assuntos relacionados ao meio literário e eu amo ler suas opiniões, muito bem embasadas. Saiba mais sobre ele em suas redes: Instagram - Medium - Twitter - Jornal Jamburana (ele é o dirigente desse periódico literário eletrônico).

07 setembro 2020

Resenha - Menina do Mato & Outros Poemas Anfíbios

Título: Menina do mato & outros poemas anfíbios
Autora: Josiane Melo
Editora: Pará.grafo
Onde comprar: Pará.grafo Sinopse: Menina do mato e outros poemas anfíbios é exatamente como um livro de poesia deve ser, conciso. Assemelha-se com as águas predominantes na Amazônia, não há nada de cristalino em sua palavra, você pode mergulhar mas desconhece toda espécie de seres e objetos viventes no fundo. Quem transita entre águas tem alguma comunidade ou urbe destino. E a geografia da poeta nos convida para ampliar nossa noção de cidade. O restante do Brasil e do mundo tem mania de imaginar a Amazônia em uma dialética tensa entre florestas e desmatamento, rural e urbano. E se levássemos a sério esses versos, encontrando uma verdade tão óbvia de escondida, não é a cidade e o mundo inteirinho uma floresta calculada?

Ler poesia paraense está sendo mais do que prazeroso. Continuo em meu projeto pessoal de ler mais poemas e mais autores oriundos da minha região, Pará, e a Josiane Melo foi mais uma leitura privilegiada que realizei. Menina do Mato e Outros Poemas Anfíbios é um título bem sugestivo à obra, mas ela não se resume apenas pela menção e referências de elementos paraoaras (relativo ao Pará); os poemas de Josi remetem igualmente a questões de identidade, referências literárias, amor, família e sobre ser mulher.

Há que se enfatizar, também, o prefácio do livro, escrito por Hermes Veras, também escritor, que nos deixa com um gostinho de quero mais ao ler sua apresentação, muito bem escrita e igualmente poética, estando muito bem à altura da produção de Josi.

A poesia do mato, do rio, das ruas enlameadas, das prateleiras de livros a se equilibrarem em habitações de palafitas, sempre passíveis de mergulho, enfim, a poesia anfíbia é um brinquedo de cura!
Hermes de Souza Veras (viu.eitanem)

É um livro curto, mas muito significativo, principalmente pelos elementos regionais presentes: a rede, o mato, o rio, a ancestralidade familiar, o linguajar paraense, os costumes daqui. A leitura e releitura desses breves poemas, grandiosos em sua poética, é mais do que bem-vinda e relembrar do que foi lido também.

Josi também nos apresenta em sua poesia uma mulher escritora apaixonada por livros, por leitura, por literatura em si. Minhas partes preferidas com certeza foram as de referências feministas e de outras produções literárias:
corri para ver o mar
com entusiasmo de escavar
corpos preciosos
da ditadura militar
convivemos com a morte diária
pelas beiradas dos canais
matas
rios
dos becos verticais
fingimos não ver
a morte clandestina
pelos becos da memória
no corpo da menina
Mortalidade clandestina (Para Conceição Evaristo) - Josiane Melo
Além da simpatia e carisma da autora (poder ter um exemplar autografado e um encontro, breve, mas pessoal com o autor, é uma das vantagens de se ler literatura contemporânea de autores locais), a edição da Pará.grafo, editora de Bragança (cidade do Pará, a 212 km de distância da capital) é primorosa. Afora um errinho na segunda orelha do livro, não tenho o que apontar na revisão ou diagramação dele. Recomendo muito a quem gostar do gênero ou quem deseja iniciar na leitura de poemas.

31 agosto 2020

A arte de Karipola


Hoje vamos conhecer um pouco mais sobre a Karina Pamplona, outra artista paraense que tive o prazer de conhecer durante este ano e que aceitou meu convite para este post. Amo ver as artes da Karina no Instagram (local onde conheci seus trabalhos). Vamos conhecer um pouco mais da artista?

Uma breve apresentação sobre quem é você, o que faz, sua formação, o que te inspira:

Toda a vez que tenho que responder quem eu sou entro num pane, porque eu mesma não sei bem. A gente acaba se descrevendo pelas nossas ocupações, ou no que a gente é bom, ou no que a gente é ruim, mas aquela nossa essência sempre se perde quando se põe em palavras, né? Ca-ham. Passado o surto, nasci e continuo vivendo desde esse dia em Belém. Como toda a criança sempre desenhei, mas comecei a querer mostrar o que eu fazia lá pelos 15 anos, junto com aquele combo da adolescência de não se achar bom o suficiente, parar de produzir e estancar. Mas a necessidade de se expressar sempre esteve latente, e só mais recentemente que venho mantendo uma regularidade e admitindo pra mim mesma que sou ilustradora e artista - ainda é um processo novo que eu espero que se consolide e saia de forma mais natural com o passar do tempo. Minha formação acadêmica é em Arquitetura e Urbanismo, mas em vias de acabar com esse relacionamento abusivo em breve. Também faço uma pós em Design Gráfico e mestrado em Planejamento Urbano (haha, tudo certo). Já a minha formação enquanto pessoa vem das conexões que fiz ao longo de 26 anos, que é um dos grandes pontos de partida e inspiração da minha produção.


Como você descreve sua arte?

A minha arte é parece eu, alguém perdido tentando se encontrar, minha linguagem transita através de cenas ou de quadrinhos em que o conteúdo vem de um lugar muito particular das minhas vivências e do que me toca de alguma forma.


Quais técnicas você utiliza?

Ultimamente utilizo bastante a pintura digital pela generosidade de permitir pensar outros caminhos em tempo hábil. Também pintava bastante com aquarela, mas venho percebendo que talvez não seja a técnica mais adequada para uma pessoa impaciente, às vezes nos damos super bem e às vezes estamos brigadas.

Quais inspirações/influências você possui?

Acho que tudo que nos rodeia acaba se tornando uma inspiração se a gente dedica a atenção do nosso olhar. Mas parando pra pensar, acho que a minha maior inspiração é a arte manifestada na vida, no drama e na comédia de existir – um jeito bonito pra dizer: meus dramas e trocadilhos que eu forço fazer.


Como você se descreve, enquanto artista, mulher, etc?

Essa é a primeira vez que me descrevo enquanto mulher-artista. O meu interior reluta um pouco em admitir pelo imaginário que me foi construído em torno da palavra artista, que geralmente vem cercada de uma pompa – mas, ao mesmo tempo, a arte pra mim é apenas outra forma de pensar, de alcançar com sensibilidade outros olhares, tem a ver com refletir sobre a vida que nos rodeia e principalmente sobre se expressar. E artista é quem faz arte, né? A necessidade de comunicar essas reflexões internas vem de mãos dadas com o processo de me conhecer e me reconhecer no mundo, mas olho pro chão de estrada que falta e percebo que existe um longo pra me encontrar verdadeiramente, o que talvez nem seja possível, então aceito o risco e me descrevo como andarilha de mim.


Recomenda algum (a) artista atual que te inspira?

Nossa. Vários! Gostaria até de tirar esse espaço pra enaltecer paraenses que contribuíram pra minha formação. A Vika Albino que foi a amiga no ensino médio que ensinou a querer desenhar e que faz um trabalho belíssimo em aquarela, ela que plantou a sementinha de que é possível. Por muito tempo eu fiquei hipnotizada pela poesia visual da Keyla Sobral, eu acho incrível a sensibilidade dela com as palavras. As fotos da Naiara Jinkins são de uma verdadeira força e questionamento bruto. Recentemente li o livro da Monique Malcher e me fez reconectar com o meu passado, algo muito poderoso se encontrar com si. Também recomendo a arte delicada e que me inspira demais do Igor Oliveira. Pra fechar, a voz, o canto e o dom da Lariza com as palavras.


Além da ilustração, o que gostas de fazer?

Ler. Assistir filme. Ver o pôr-do-sol. Tomar sorvete. Fazer alguém rir. Conversar sobre tudo. Comer pudim. Tomar banho de cheiro. Fazer carinho na barriga da minha gatinha e tirar a mão rapidamente antes dela me atacar.

Karina é uma fofa! Para acompanhar mais do trabalho dela, siga: @karipola

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